Domingo, 10 de Dezembro de 2023
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TIAGO BRUTTI

CONSIDERAÇÕES SOBRE O SENTIDO DA CULTURA



Professor, pesquisador, editor e um dos maiores intelectuais da região noroeste gaúcha, o giruaense Tiago Anderson Brutti é o novo articulista do Jornal Informal

CONSIDERAÇÕES SOBRE O SENTIDO DA CULTURA

Tiago Anderson Brutti

 

Agradeço, afetuosamente, ao jornalista Rodrigo Bergsleithner, meu amigo, pelo convite para dar uma palavra sobre temas de livre escolha, periodicamente, no notável Jornal Informal, o que é uma honra e um prazer para mim. José Luiz dos Santos e Zygmunt Bauman são meus interlocutores nesta primeira página de considerações, na qual abordo os sentidos em que se pode entender a palavra cultura. 

Continuarei discorrendo sobre o tema nas próximas manifestações. A sociedade contemporânea é um conjunto de ecossistemas habitados por atores inseridos no contexto de um ou mais grupos sociais que partilham e, também, distinguem-se pela questão cultural, umas das dimensões da existência humana e da convivialidade comum. A cultura está relacionada aos processos identitários, às características diversas dos povos, aos significados compartilhados, às regras e condutas habituais etc.

Cada cultura expressa práticas sociais com características comuns e, também, específicas, representando um comportamento social predominante dentro dos diferentes grupos. De acordo com Santos (2006, p. 21), os estudos sobre a cultura se intensificaram na medida em que os povos e nações faziam contato entre si, sendo que as preocupações “[...] se voltaram tanto para a compreensão das sociedades modernas e industriais quanto das que iam desaparecendo ou perdendo suas características originais em virtude daqueles contatos.”

O conceito de cultura, quaisquer que sejam suas elaborações específicas, pertence à família dos termos que representam a práxis humana. Essa é a concepção de Bauman (2012), para quem o conceito de cultura transcende o dado imediato e ingênuo da experiência individual e privada. O sociólogo descreve a cultura como um “agente” em constante transformação e assimilação. Ainda que um Estado ou nação estimule determinada tendência cultural, nacionalista, regionalista, nativista ou tradicionalista, a diversidade de expressões culturais permanece, potencialmente, capaz de fazer germinar, transformar-se e gerar frutos.

No que respeita ao conceito hierárquico de cultura, cuja origem remete à Grécia e à Roma antigas, Bauman (2012) destaca que o uso do termo no senso comum, arraigado na sociedade, distinguia pessoas cultas (requintadas e educadas) das incultas. Vários fatores são relevantes para compreender essa noção hierárquica de cultura:

1) Herdada ou adquirida; a cultura é parte do ser humano; partilha com a personalidade a qualidade de ser essência definidora e característica existencial; todavia, a cultura, apesar de suas peculiaridades,  também pode ser compreendida como uma propriedade; consequentemente, pode ser adquirida, dissipada, manipulada, transformada, moldada e adaptada;

2) A qualidade de um ser  humano pode ser moldada, adaptada, mas, também, abandonada como uma terra inculta; nesse sentido, conforme a metáfora de Plutarco, o solo só dará bons frutos se for tratado por um agricultor competente que seleciona as melhores sementes;

3) A noção hierárquica de cultura é  saturada de valor; o termo só assume uma posição tendenciosa na discussão a respeito da comparabilidade ou relatividade das soluções culturais.

Na próxima coluna abordarei em linhas gerais os limites de uma separação hierárquica entre o popular e o erudito. Até a próxima! Foram citados neste texto os livros “O que é cultura?”, de José Luiz dos Santos, e “Ensaios sobre o conceito de cultura”, de Zygmunt Bauman.

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