Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

EDNA LAUTERT

A PERDIDA



Edna Lautert é jornalista. Integra a Academia Santo-angelense de Letras. Autora de contos, poesias, crônicas e novelas

(Obra de ficção, sem compromisso com a verdade. Qualquer semelhança é mera coincidência)

As luzes davam um toque colorido à cidade. Era véspera de Natal. Lá, na coxilha, Cleusa parou para admirar mais uma vez aquela que fora sua moradia nos últimos cinco meses. Havia deixado Santa Rosa para morar em Santo Ângelo, com Ernesto, o “Honesto” para os mais chegados. Passados cinco meses percebeu que esta, decididamente, não foi a escolha mais acertada.

Ernesto Sinval era um homem modesto, parecia pacato. Usava um bigode sempre bem aparado, um cavanhaque e a barba sombreada, que valorizavam seu rosto quadrado, acrescendo virilidade para suas características físicas. O corpo bem definido, com os músculos da perna sempre à mostra nas bermudas que usava diariamente. O que tinha de másculo e atraente o conservava em sacanagem. Aquela surpresa no banheiro da cunhada, justamente com o namorado dela deixou Cleusa desanimada. Largada, com uma mala de roupa, pensou em pedir carona para casa, o pai teria que permitir seu retorno.

-Bonito fim para uma acadêmica de Medicina – gritou, mais alto que o necessário. – Merda!

Sim, tudo era motivo para xingar, enquanto se dirigia ao trevo da RS-344. Olhou para o sapato, o salto estava torto. Também, cinco meses repetindo o mesmo calçado, uma hora haveria de entortar. E pensar que quando conheceu Ernesto chegou a acreditar que seria feliz. Vivia com a boca escancarada, sorrindo até as orelhas, como quem faz festa para agradecer um prêmio da loteria. Só que Ernesto combinava mais com jogo do bicho: biscateiro, desempregado, beberrão, festeiro, passava mais tempo na balada que na própria casa.

-Bem que meu pai me avisou para não largar a faculdade – pensou. Nessa hora de arrependimento sempre se pensa no aconchego da família.

Muitas vezes precisou vender as roupas que tinha para comprar comida. E as mãos, acostumadas a tocar piano agora estavam cheias de calo, dos dias que precisava fazer faxina para ganhar algum. Enquanto isso Ernesto dizia que fazia biscate de pedreiro – entre outras coisas – mas o dinheiro nunca aparecia. Até aquela traição – para ela e para a irmã dele.

Não havia o que fazer. Precisava voltar para casa dos pais. Mas Ernesto descobriu o esconderijo de suas economias. Levou tudo. Não deixou nem para o ônibus.

Aflita, sem saber o que fazer, nem ousou pedir ajuda para a cunhada. Novamente sairia as escondidas. Decidiu aguardar na rodovia por uma alma caridosa que a levasse até Santa Rosa. Chegando na casa dos pais pediria arrego. O último contato com a família foi o bilhete que havia deixado, informando que seguiria Ernesto. Largou a faculdade, a família–fugiu,  literalmente, pulando a janela durante a madrugada. Vendeu as joias, mas o dinheiro durou pouco. Dinheiro sempre durava pouco com Ernesto. Vendeu as roupas de maior valor e finalmente, a faxina foi sua saída. 

Ainda lembrava das palavras do pai quando pediu permissão para namorar Ernesto: -Não! – Também lembrava sua reação quando contou que namoravam escondido, e que iria com o namorado para Santo Ângelo, já que ele não gostava de ficar muito tempo em um mesmo lugar.

-Deixar a faculdade para seguir esse vagabundo?

-Mochileiro! – ela corrigiu.

-E quando o dinheiro acabar?

-Vamos trabalhar.

-Trabalhar? Você acredita mesmo que ele vai trabalhar? Está louca!

Seu Gregório tinha razão: realmente enlouquecera. Tanto que fugiu com Ernesto dois dias depois.

Vivido o romance, descoberto quem realmente era Ernesto, começou a perceber que o pai sempre teve razão. Ernesto saia todas as noites, vagava até a madrugada, e muitas vezes retornava embriagado. Em suas roupas, não raras vezes, havia marcas de batom. Quando o dinheiro de suas joias terminou, ele transformou-se em um homem mau humorado, agressivo. E até nem mais lhe falava de amor.

-Como não percebi isso antes, como? – a pergunta não saia de sua mente.

-Vai entrar ou mudou de ideia?

Despertou. Olhou para a rua. Um veículo estava parado à sua frente, e uma alma caridosa sorria em sua direção.

-Vou para Santa Rosa – informou.

-Te levo – acrescentou o outro.

Entrou. Durante os primeiros quilômetros tudo que se ouviu era um som baixinho, de uma moda sertaneja. Sujeito esquisito, calado. Vez por outra espiava a paisagem, e as pernas da caroneira. Cleusa colocou seu vestido florido, estava quente demais.

-Moro lá – disse ele, quebrando o silêncio. Como se chama?

-Cleusa.

-Solteira? – ele quis saber.

-Sim.

-Eu também, sou solteiro, liberto – completou ele.

E a conversa seguiu, vez por outra até animada. Tanto que ela aceitou tomar um suco com o novo amigo, no Bar do Timóteo. Depois disso dirigiu-se para a casa do pai. O novo amigo fez questão de a conduzir até lá.

-É noite, pode ser perigoso – argumentou.

Quando ela chegou em frente ao portão, frio percorrendo a espinha, o medo de entrar e tocar. Já não tinha mais tanta certeza de ter feito a escolha certa. Até que a mãe apareceu na janela.

O tempo parecia voar. Cleusa reconquistou a confiança do pai. O amor da mãe. E, quando janeiro chegou, voltou a matricular-se na faculdade.

Aos poucos, voltava a ter um cabeleireiro, manicure, e ganhou até roupas novas.  Quando a bela Cleusa passeava pelas calçadas de Santa Rosa, arrancava suspiros. Aquele semestre estava promissor. Até que, julho chegou...

-Estás louca? – seu Gregório não acreditou – ele é um picareta. Conheceu-o na rodovia! Vende carros no Paraguai?

-Eu o amo! – disse, convencida!

-O que você sabe de amor, menina? Há poucos dias amava o mochileiro! – dessa vez o pai acertava a profissão de Ernesto? – Não e ponto final! Estais é louca, isso sim.

É, realmente dizem que Cleusa enlouqueceu. Deve ter sido depois daquele suco, no Bar do Timóteo.

Novamente a madrugada foi testemunha, quando dois amantes – que se conheceram na rodovia 344, deixaram a cidade, com destino a Três Passos, para viverem “eternamente felizes”.

Enquanto isso, em Porto Alegre, a Delegacia de Furtos e Roubos investiga uma crescente onda de furtos de veículos na região metropolitana, e a ligação da quadrilha com o Noroeste do Estado. Suspeita-se que o líder maior tenha residência fixa na região da Grande Santa Rosa.

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