Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

EDNA LAUTERT

A Feiticeira da Lagoa



Estranhamente, nas noites de lua, quem passeia por aquelas bandas já afirmou ter visto, ao longe, um cavaleiro carregando uma mulher na garupa

Durante suas viagens ao Sul do Brasil, Emílio muitas vezes andou pelos campos, perfazendo o caminho dos tropeiros que se serviam do Rio Grande do Sul para levar gado para outros estados. Pela região missioneira muito deste gado havia ficado perdido, desgarrado, "solito", vagando por campos e coxilhas, depois da chamada Guerra Guaranítica, que dividia países como Portugal e Espanha em uma disputa sangrenta pela posse de terra. E não era segredo para ninguém que, durante essas lutas muitos corpos sobravam, a apodrecer ao léu e ao descaso de quem ganhava esses caminhos. 


Conta a lenda que certa feita Emílio avistou, ao longe, uma linda espanhola, perdida, nas proximidades de um lago, bem na clareira da mata, perto de onde hoje está o município de Eugênio de Castro. A jovem, de pele rosada e lábios furtacor, era a mais linda criatura que o peão jamais sonhara encontrar. E, ele quis perguntar o que fazia tão linda dama sozinha, no meio da imensidão daquelas terras, que se perdia dos olhos de quem ousasse procurar uma paragem. Ao primeiro olhar parou, hipnotizado pela beleza daquela mulher.


-A moça quer companhia? – disse, faceiro.
-Sim. Estava esperando por você – a resposta parecia abrir uma sinfonia em seu peito, tão acostumado estava a andar sozinho pelos pagos, e que agora se encontrava assim, a mercê daquele sorriso. Por um momento chegou a pensar que era o paraíso, e um leve torpor subiu-lhe à face. No entanto, em um lampejo de lucidez, veio-lhe na memória que poderia ser uma falceta de algum inimigo.
-O que faz uma dama neste lugar distante, perdido no meio do nada. Se me prepara uma tocaia por certo estou morto – disse ele
A dama sorriu de sua desgraça.
-Sou uma feiticeira. Sai daquele lago ali – e apontou para a lagoa – e vim ter um encontro contigo.
Ele faz um gesto teatral:
-Por certo, estou encantado.
Foi o que bastou. 


Enquanto caminhava pelo pampa à fora em direção ao acampamento, a imagem daquela mulher não saia de sua memória. Nem seu sorriso enigmático, e o olhar avassalador.
-Preciso vê-la novamente – disse, ao encontrar com Osvaldo.
-Santo Deus, homem, percorremos quilômetros por estas bandas e não encontramos nada. Uma viva alma. Nem uma casa, nada. Só a igreja a uns 30 quilômetros ao norte – alertou Osvaldo. Mesmo assim, Emílio não se contentava.
-Vou voltar ao lugar aonde a encontrei. – disse.
-Na Lagoa? A esta hora da noite? Em plena sexta-feira. Deve estar brincando. Aquela lagoa é amaldiçoada – era Francisco quem advertia.
-Não diga tolices, Francisco. Ele está meio louco, mas, nem por isso devemos apelar – Osvaldo ria alto.

-Estou falando a verdade. Naquela lagoa eram atirados os corpos encontrados por estas bandas em tempos de guerra. Deve ser uma alma penada – avisou Francisco.
-Siiiimmmmm – Osvaldo fazia gestos fantasmagóricos. E o riso corria solto no grupo.

Emílio apanhou seu cavalo, e sumiu na escuridão. Três dias e três luas se passaram e nada de ele retornar. Homens do acampamento procuraram por todos os lugares. E, dizem até que um grupo visitou a Lagoa da Mortandade. Nada. Nunca mais foi visto.


Estranhamente, nas noites de lua, quem passeia por aquelas bandas já afirmou ter visto, ao longe, um cavaleiro carregando uma mulher na garupa, assoviando seu flautim, e sumindo pelo céu, em direção ao luar. 
 

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