Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018

ADÃO CASSIANO

HAITI



“Haiti”, música que empresta o título à coluna de hoje, é a primeira faixa do álbum “Tropicália 2”, lançado em agosto de 1993 por Caetano Veloso e Gilberto Gil

“E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos...”

(Caetano Veloso)

 

Após longo intervalo sem manifestar opiniões nas mídias estabelecidas, retomo a escrita jornalística a convite do editor do Jornal Informal, Rodrigo Berghsleitner, conhecido de longa data e colega de redação em veículos impressos e digitais.

Nos anos que se passaram, em que me dediquei exclusivamente à produção acadêmica, assisti às profundas mudanças que redimensionaram tanto a gestão dos meios de comunicação, sua produção e distribuição, quanto a crescente influência das redes sociais enquanto espaços próprios para a expressão individual.

Sob a falácia da democratização do acesso à suposta multiplicidade de conteúdos estimulada por conglomerados como o Facebook, todavia, o que vi emergir foi a pauperização de conceitos, o abandono da coerência e a explosão de discursos de ódio e segregação, o que me motiva a adentrar o debate público a partir do ponto de vista de alguém que, como tantos outros, abandonou o embate de ideias por preguiça, tédio ou por descrédito acerca de (e por parte de) seus contemporâneos.

 Engana-se, contudo, quem supor que as batalhas travadas no âmbito privado têm menos relevância, nestes dias, do que aquelas coreografadas às vistas de todos: é a respeito destas que pretendo me deter neste espaço, visto que é no recôndito das instituições que se alimentam as correntes de pensamento em ação.

Assim, parto de uma situação cotidiana ocorrida há poucos dias, em um estabelecimento comercial que frequentei durante mais de um ano e no qual encontrei, por parte dos proprietários, abertura para o diálogo e uma troca saudável de ideias, crédito pontual e suporte afetivo até o momento em que, temerosa pela segurança de sua prole, vi a amiga conquistada em longas tertúlias reproduzir clichês fascistas em voga entre pessoas “de bem”.

Explico: dois ou três dias antes, foi amplamente divulgada pela mídia local a morte de uma santoangelense que, após viagem ao Rio de Janeiro, faleceu sob suspeita de ter contraído doença infecto-contagiosa na capital carioca, consternando a comunidade.

Sem me prolongar acerca deste fato (em respeito à memória da vítima e da família), que me parece relacionado ao surto de febre amarela atualmente registrado em diversos estados brasileiros, o que me faz discorrer sobre o assunto é como, a partir desta fatalidade, elaborou-se o discurso endossado por minha amiga, segundo quem a emergência de tais problemas de saúde pública “poderia estar” relacionada à crescente entrada, no país, de imigrantes haitianos, o que exigiria do Governo uma atitude no sentido de imunizar adequadamente os membros desse grupo.

Perplexo, indaguei a respeito de como se elabora um pensamento como este, no qual se articulam preconceitos originados de diferentes fontes, maquiados de forma a esconder um profundo temor xenofóbico, ao que se seguiram afirmações quanto à liberdade de opinião e da preocupação com a saúde “das crianças”.

Retomando: a partir de uma perda (irreparável), coloca-se em xeque a autonomia biopolítica de uma coletividade (formada pelos haitianos que vivem e trabalham em Santo Ângelo e na região), empregando-se (sem consulta prévia) o luto de familiares abalados como combustível para o fortalecimento de posturas de ultra-direita, e isso é considerado algo banal, inclusive ao ponto de ser repetido, enfaticamente, por uma criança, em um estabelecimento comercial em plena luz do dia?

Ainda não tive oportunidade de debater o assunto com nenhum membro da comunidade haitiana aqui estabelecida, à qual não tenho acesso direto, mas ao chegar em casa não pude deixar de questionar, além do que havia assistido minutos antes, como tais pontos de vista incidem sobre o cotidiano destes cidadãos que, sob a ótica dos inseguros, transformam-se em vetores ambulantes, agregando novos desafios às problemáticas que vivenciam em terra estrangeira.

Considerando que a maioria da população oriunda daquele país tem a pele negra, talvez resida aí parte do receio vinculado aos imigrantes haitianos. Como se sabe, o racismo é fenômeno latente na sociedade brasileira, e apresenta variações significativas em regiões colonizadas por europeus, como a nossa.

Fui alvo de críticas, por parte de pessoas “de bem”, em diversas ocasiões, por me referir aos membros dessa etnia como “negros”, como se se tratasse de uma ofensa, e não da valorização de milênios de cultura, tradições e valores compartilhados por uma enorme parcela da população mundial.

Demonstração clara do poder das palavras, o emprego (ou abandono) desta ou daquela designação reflete o momento histórico em que vivemos, e sinaliza para a qualidade (ou falta de) do que se avizinha no horizonte, o que torna urgente a pergunta: “quantos negros você conhece?”.

 

EM TEMPO: “Haiti”, música que empresta o título à coluna de hoje, é a primeira faixa do álbum “Tropicália 2”, lançado em agosto de 1993 por Caetano Veloso e Gilberto Gil, em comemoração aos 25 anos do movimento homônimo, que buscou valorizar elementos da cultura brasileira.

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