Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

EDNA LAUTERT

O deputado e a “Notinha de Dólar”



Edna Lautert é jornalista, escritora e, atualmente, preside a Academia Santo-Angelense de Letras (ASLE)

Amanhecia no Parque São Cristóvão, interior do Estado da Mão Leve. Habitado, em sua maioria, por políticos, o Estado da Mão Leve era muito popular. E, em suas ruas, não existiam pobres. Somente mansões e alguns clubes, bares, cassinos clandestinos. As classes mais pobres haviam sido expulsas, através de um plebiscito, e estavam concentradas em um vilarejo localizado a uns 150 quilômetros dali. Sabe como é, em um Estado onde a grande maioria dominante recebe uma renda superior a R$ 108 mil mensais, ou até mais, dependendo do “cotão”, não ficava bonito para a fotografia haver essa fusão de camadas sociais ao alcance dos olhos da imprensa internacional. Então, por uma democrática votação, a classe operária e outros afins foram removidos para o Morada Legal, no outro extremo do Estado.

No entanto, vez por outra a população da Morada Legal era visitada por uma figura ilustre: o deputado Ricardo. Nos últimos meses com uma frequencia bem maior que a habitual. Diziam as más línguas que ele andava de olho cumprido – e todo o resto do corpo – para a Mariazinha. A moça era uma lindeza só. E, a julgar pelo apelido, “Notinha de Dólar”, era a preferida do deputado.

Um dia, o povoado todo dormia, e a multidão que não tinha casa, nem nada, estava em reviravolta: havia um intruso perto da ponte, morada dos sem lar. João foi o primeiro a reclamar:

-Ei, ô meu! Levanta daí, cai fora!

Ricardo, mesmo sendo sacudido, não parecia ter vida.

-Será que apagaram ele? – perguntou a Marta. Bem que  ela queria mesmo que isso acontecesse.

Aos poucos chegou o Manoel, o Jair, a Nice e, a baixaria tomava forma. Com tanto solavanco, e gritaria, Ricardo despertou.

-Deus do céu, que inferno é esse? – bradou – Onde estou?

-Na nossa casa – informou a Marta.

-Isso aqui parece mais com ...- olhou, e, ao lembrar que ele mesmo dera o nome no “Batismo” do lugar, conteve-se. Sentou, e aos poucos ia lembrando. Fazia dois dias que saiu de casa para ir ao Clube, depois veio a noitada na casa da Juliana, o almoço com o Alfredo e a gostosa da Natália, que por sinal tinha umas amigas. Ah, e já ia esquecendo da dose extra de tequila no bar do “Checo”. Sim, só pode que o “Checo” havia preparado alguma naquele copinho.

-Ah, esse “Checo” me paga – disse.

-Olhem, o cara de pau ainda reclama do “Checo”, disse dona Nice, outra que gostava da “braba”.

-Fora, fora, deixem-me passar – exclamou o deputado. E, num gesto teatral, passou entre a multidão e foi-se embora. Era a arrogância escrita e escarrada. Nem nos piores momentos deixava a petulância de lado – nem mesmo na miserável falência humana.

Durante o dia a comunidade ainda conseguiu saber que o deputado Ricardo havia levado um fora da Mariazinha. Que o trocou pelo amigo dele, que ganhava mais – Mariazinha não se deixava enredar por deputado que se perdia no vício. Pelo menos no vício de beber e na jogatina. Sim, ela encontrou outro melhor. Com conta na Suíça e tudo.

 

Uma semana mais tarde o episódio estava esquecido. Era época de eleições, e o povo do Morada Legal havia recebido um presentão: um asfalto novinho entregue pelo prefeito Fortunato. E só se falava nisso por aquelas bandas.

ascencao
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dukkkka
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