Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

RODRIGO BERGSLEITHNER

A minha conversa com PAULO PABLO SANTANA, por Rodrigo Bergsleithner



Sant Ana me ensinou muito. O principal foi sempre acreditar na sua opinião, mesmo que te achem crítico ou que uma legião de pessoas passem a duvidar de seu talento

Há 19 anos no jornalismo, tive o privilégio em uma fria tarde do mês de julho, no ano de 2014, em Porto Alegre, em participar do programa SALA DE REDAÇÃO da RÁDIO GAÚCHA, na sede da emissora no prédio da ZERO HORA, quando divulgava a todo o Estado o meu livro AS GLÓRIAS DO FUTEBOL SANTO-ANGELENSE (Editora URI, 2011). Neste dia, ao lado de Pedro Ernesto Denardin, Wianey Carlet, Lauro Quadros, David Coimbra, Kenny Braga, Adroaldo Guerra Filho "Guerrinha" e Luis Carlos Silveira Martins "Cacalo", tive o meu segundo encontro com o célebre e imortal jornalista Francisco Paulo Sant'Ana, popularmente PAULO SANT'ANA

De imediato, Paulo "Pablo" Sant'Ana lembrou da final de 1960 do campeonato gaúcho, Série B, quando o Tamoio Futebol Clube de Santo Ângelo sagrou-se campeão e ele estava em Estrela/RS, acompanhando a partida. Da voz de Sant'Ana, também ouvi elogios ao jogador Lambari, formado no Tamoio e consagrado no Sport Club Internacional. Foi de Lambari o gol da vitória do Internacional, em 1967, no Pacaembu, 1 a 0 diante do Corinthians, marcando a primeira vitória na história do futebol brasileiro de uma equipe gaúcha vencendo uma equipe paulista no Estado de São Paulo. Neste dia, Pablo acompanhava a transmissão da partida. 

Antes disso, no ano de 2006, encontrei Paulo Sant'Ana à frente da sede social do Clube Gaúcho, em Santo Ângelo, na rua Marquês do Herval, quando conversamos no Centro Histórico de Santo Ângelo, na Praça Pinheiro Machado, à frente da imponente Catedral Angelopolitana, desbravando assuntos variados desde a música de Lupicínio Rodrigues, a poesia e o amor pelo ser feminino destacados por Julio Iglesias, de quem minha mãe Marlene gostava muito, e desde pinceladas sobre Sigmund Freud, Rimbaud e até a "boca suja" de Charles Bukowski. Claro que não pode faltar a história jesuítica-guarani, a qual sou um amante e autoditada por toda esta riqueza missioneira, e embates sobre o Internacional, afinal naquele momento o Internacional acabava de conquistar a sua primeira Copa Libertadores da América. Acompanhei o carismático e genial jornalista até a entrada do Hotel Maerkli, na Avenida Brasil, quando bebemos um café ao lado do proprietário Geovani Gisler.

Na despedida do SALA DE REDAÇÃO, deixei ao amigo um exemplar do meu livro sobre o futebol e me senti orgulhoso quando ele pediu autografado. A caneta tremia, afinal eu estava à frente do jornalista que mais me inspirou - além de Mendes Ribeiro, Arnaldo Jabor e Flavio Bechler - desde a minha paixão pela leitura e pela arte de escrever no ano de 1987, na casa de meu avô materno José Nepumuceno Martin, o qual lia a Zero Hora e me passava em seguida. Naquele instante, Sant'Ana disse que havia recebido o meu livro de poesias A CURA (Editora do Jornal das Missões, 2006) e que havia achado um "embaralho de Fernando Pessoa, com ele próprio e uma pitada de Franz Kafka". Além de ser elogiado pelo genial jornalista que eu admirava, me senti ludibriado com as palavras. Inclusive, no meu livro AS GLÓRIAS DO FUTEBOL SANTO-ANGELENSE, tem a foto publicada de Paulo Sant'Ana em Santo Ângelo, no antigo estádio do Elite Clube Desportivo, quando a AESA perdeu para o Internacional por 4 a 2, em 1972, e Pablo estava na cabine de imprensa ao lado de Lasier Martins. Ele mesmo viu a foto e disse: "eu já era bonito!".

Sant'Ana era assim: genial, irreverente, criativivo, inovador e dono de uma visão jornalística impressionante. Um gênio da TV, do jornal impresso e do Rádio. E a maior resposta para quem acredita que "ser jornalista" se aprende na Academia e se comprova por meio de um diploma. Sant'Ana não tinha diploma, apenas o registro profissional de jornalista, o que comprova que o jornalismo vem do sangue, da autenticidade, da observação, de muita leitura, do contato com o povo e, lógico, com um pouco de riqueza cultural e boemia. 

A Zero Hora perde, o Rio Grande do Sul perde e o Grêmio fica sem o seu maior torcedor. Mas Sant'Ana jamais vai ser esquecido. A Arena do Grêmio deveria levar o seu nome. O campeonato gaúcho deveria levar o seu nome e me orgulha de ter em minha gaveta o seu livro de crônicas com apenas um dizer: "deixe que falem de ti, nós sabemos o quanto somos do mundo".

Foi um dia em que chorei à frente da TV, vendo todas aquelas homenagens na excelente produção da RBS TV. E eu sabia que aquele momento em que sentei ao seu lado, ou que caminhei ao seu lado, na companhia de um maço de cigarros que dividimos, era eterno. E quando lembro destes momentos é o que me orgulha de ser jornalista, independente de ganhar bem ou não, de estar em um grande veículo ou não, é esta a riqueza que levo comigo e que hoje divido com os meus filhos: ser jornalista tem uma rica história que poucas profissões também são beneficiadas. O meu legado deixei em Santo Ângelo: o primeiro livro sobre futebol e o mais vendido da história desta cidade e com a foto de Pablo em seu interior. Mas a maior riqueza, nestes 19 anos, é dividir momentos e trocar palavras e conteúdos com estes geniais escritores que acompanhamos desde a infância e um dia temos a honra de conversar, ser elogiado ou simplesmente discutir futebol e literatura, com elegância.

Sant'Ana me ensinou muito. O principal foi sempre acreditar na sua opinião, mesmo que te achem crítico ou que uma legião de pessoas passem a duvidar de seu talento. Independente da mídia, do partido político do chefe, seremos sempre jornalistas. "E a mente de um jornalista ninguém domina" (Sant'Ana). 

Fica em Paz, Pablo!

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