Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

EDNA LAUTERT

Vítimas do Ódio: quando não há olhares, nem amor.



Edna Lautert é jornalista, escritora e, atualmente, preside a Academia Santo-Angelense de Letras (ASLE)

Aparício Dilermando era um homem culto, modesto, de uma cidadezinha do interior.  Apesar de ter esposa e filhos não se dizia feliz.  Vez por outra desaparecia, sem deixar vestígio. Os amigos diziam que ele ia buscar alegria com mulheres, dança e bebidas.

Quando o dinheiro acabava, Aparício retornava para buscar algum. E aproveitava para checar o andamento dos negócios e dar uma ‘corrigida’ na patroa.

Antes de chegar à casa passava no ‘boteco’ do seu Bento, para beber um trago. Como ele mesmo dizia, “fazer a cabeça”. Ou arranjar coragem para enfrentar os olhares inquiridores dos filhos pequenos, e da mulher. Tinha Aninha, a filhinha mais nova, que corria se esconder cada vez que avistava o pai. Conhecia-o por ‘bicho-papão’, aquele mesmo que pega criancinha e que bate na mamãe. Aninha acompanhava Matilde, de um lado para outro, enquanto ela trabalhava para juntar uns ‘trocados’ para os apertos da entressafra. Mas criança sabe como é, não entende nada. Pelo menos é o que dizia Aparício, ao justificar para mulher o porquê de não se aproximar muito da caçula.

Quando chegava à casa, derrubava a porta aos pontapés. Salientava mais a sua força de ‘macho’. Olhava para os cantos até encontrar a mulher. Desta vez o rosto dela ainda continha o suor do trabalho forçado da roça. E, também, aquela mancha preta, do último safanão que levou, na visita passada.

Aparício observava sua “amada”. Parecia abatida. Mas, nunca aprendera a ficar quieta.

-       Trouxe as compras? – ela perguntou. Mas já fazia um mês que saíra para buscar as compras. Claro que não traria.

-       Não.

-       Não tenho mais o que dar de comer às crianças. Você tem levado todo o dinheiro.

“Mas essa mulher não aprende”, pensou Aparício. E foi logo dando-lhe um murro à queima-roupa, para trancar de vez aquela boca. As crianças gritavam, os cachorros latiam, enquanto Matilde, coitada, era levada para a sala, arrastada pelos cabelos. Na mesa, o rosto de Matilde era arremessado em cima das provas dos gastos de Aparício, que haviam sido jogadas ao mármore da mesa.

- Mulher que pergunta demais tem que apanhar – justificava.

Minutos passaram, até que o filho mais velho do casal chegava de um passeio. Da rua ele já sabia que a paz mais uma vez havia sido quebrada, pela chegada do pai. Movido pelo ódio, e o desamor, ele armava-se de um facão e jurava matar o pai. Até que Matilde o defendia. Dizia que filho seu não veio ao mundo para ser assassino. Preferia continuar sendo ‘a tábua de bater’ do marido, que prometia matar o mundo. Uma semana mais tarde ele partia. E a paz voltava novamente a reinar. Ate que os gritos na porta anunciavam o fim de mais 30 dias. De longe, se ouvia o choro triste de uma criança, e o bater de um tambor – seria um tambor? – Era uma cabeça, que dançava num ritmo de ir e vir, para baixo e para cima, de encontro à mesa de mármore. Mas o assombro não ficou apenas nas paredes da casa, ou no tampão da mesa. Durante anos a fio era a única coisa que Aninha via, e ouvia.

-O que ela tem? – perguntou a enfermeira, novata.

-Não sei. Dizem que ela vive assim depois que a mãe e o pai morreram em um incêndio. Os irmãos também.

-Pobrezinha. Que idade ela tem?

-Oito anos, talvez. Quando aconteceu tinha três.

A conversa na enfermaria da Casa de Recolhimento causava um triste pânico na pequena. Em minutos, ela corria, como que hipnotizada, sempre em direção à cozinha. Ninguém conseguia entender que estranho fascínio tinha aquela menina pela mesa da cozinha.

Nota da autora: o conto é baseado em fatos reais. É resultado de pesquisa realizada pela autora. Como fonte de pesquisa o Relatório Henrion (do Ministério da Saúde de Paris) e o Torturador, substantivo feminino, publicado pelo Libération, o próprio Le Mond, o Relatório Azul, publicado pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e delegacias de polícia das regiões Noroeste do Rio Grande do Sul.

Premiado em 3º lugar em concurso nacional de contos.

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