Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

EDNA LAUTERT

O fantasma do Casarão



Autora dos livros O Afilhado do Cão, As Aventuras da Baratinha Lelê, O Fantasma do Casarão e Os Versos que Te Fiz, Edna Lautert fez parte, também, do Jornal Zero Hora

No final da década de 70, o ano era 1978, minha mãe comprou dois terrenos no local que era chamado estradão - o nome dado para a Avenida Sagrada Família, que liga o centro e a Zona Leste de Santo Ângelo. Minha mãe era toda felicidade, afinal, fazia muito tempo que dividíamos os dias parte em um sitiozinho localizado em Entre-Ijuís e outra parte em uma casinha alugada bem próximo da grande construção de alvenaria, que se erguia majestosa no bairro Pippi: o Centro Social Urbano. Depois do entroncamento com a rua que dava acesso a essa obra, não existia calçamento – e asfalto ali, só em sonho para o futuro. Aliás, todo o trajeto pela avenida, desde a ponte sobre o rio Itaquarinchim até o Centro Social Urbano era feito de pedras irregulares, o chamado calçamento. E, a partir dele, era terra, chão batido, o que lhe rendeu o nome de estradão.  

Foi nesse local que minha mãe encontrou uma pechincha: dois terrenos contornando a esquina, duas quadras depois dessa obra, em local privilegiado, segundo ela, porque dava para enxergar boa parte da cidade, por ser, como ela mesma se referia, “no alto”. Eu até questionei o fato de o privilégio ser que a área dava de frente para o estradão e de lado para o matagal, mas minha mãe retrucou que era o que tinha sobrado para investimento e que ali seria no futuro um grande centro. Eu fui olhar o local, fiquei desiludida: não existia mais nada por ali, exceto pelos pedaços de um casarão, mais adiante, aonde mais tarde viria a ser construído, em diagonal, o novo Presídio; e por umas poucas casas, muito distantes, cuja luz noturna eu costumava comparar a pequenas estrelas.

Quando mudamos meus amigos passaram a vir nos visitar no período da noite. E saíamos explorar as redondezas, enquanto minha mãe e as mães dos meus amigos ficavam conversando e fazendo o jantar. Foi uma amiga mais velha um pouco, acredito que uns quatro anos a mais que eu, quem nos colocou a par da história do velho casarão, localizado a poucos metros de minha casa, do outro lado da rua: o proprietário havia sumido, não aparecia mais por ali, e, como o prédio não era utilizado há muito tempo, havia sido invadido por um fantasma que gostava de promover festas sangrentas à noite, quando almas penadas vagavam pela escadaria do casarão, arrastando correntes, e pedindo para que alguém fosse socorrer. E, se algum humano ousasse entrar no local, seria devorado, uma vez que a alma em questão alimentava-se de carne humana.

Quando soubemos dessa notícia corremos para casa, contar para minha mãe. Ela entendia muito de fantasmas, aliás, entendia de tudo que se podia imaginar, por isso era minha mãe. Logo, ela desvendou o mistério: o casarão devia ter um tesouro escondido em algum lugar e, por causa desse tesouro os fantasmas apareciam à noite. Minha mãe sempre contava que haviam muitos tesouros escondidos na Zona Leste da cidade, por que era trajeto de viajantes em tempos de perseguição de guerra – nascida em 1928, ela acompanhou de perto a movimentação em Santo Ângelo nos tempos da guerra. E, claro, como todos os que costumam contar uma história, usava muita imaginação para fascinar a platéia. Tanto, que nos convenceu, ao meu amigo Chico (que Deus o tenha) e a eu, de que precisávamos ir à noite até o casarão, verificar.

E armamos uma expedição, com alho em torno do pescoço, umas varetas de cinamomo, lamparinas – aquelas acesas com querosene; e, claro, o bom e velho facão, e algumas batatas assadas para o caso de fome. Como não existia mais nada próximo, o escândalo daquela situação nem nos passou pela cabeça, afinal, íamos encontrar um tesouro e, de quebra, eliminar um fantasma – minha mãe era muito corajosa. Na chegada ao local, minha mãe e Chico entraram no pátio e se dirigiram a uma grande árvore que existia do lado do prédio. Eu, muito corajosa, fiquei chorando no portão. Minha mãe disse para eu parar de chorar, que eles já voltavam, mas eu não conseguia parar. Sempre fui assim, ao primeiro sinal de quebra do que costumo chamar de “normal”, lá vem o choro.

Pensava no que minha amiga dizia, sobre os fantasmas que se alimentavam de carne humana. E como estava sendo covarde, deixando minha mãe e o Chico à mercê deles. Entrei pelo portão e fui me aproximando. Quando consegui chegar perto de minha mãe chorei tanto que a convenci a voltar para casa. Não sem antes ela espiar pela porta do assustador casarão e me pedir para que eu fizesse o mesmo.  Havia uma luz estranha no meio do salão, muito sinistro. È que o local dava acesso a uma escadaria e havia um buraco no teto, pelo qual entrava a luz da lua – e isso criava uma atmosfera apavorante para quem espiava pela fresta da porta.

Voltamos para casa, eu aliviada por não ter encontrado o fantasma, que com certeza estava escondido com medo do facão da minha mãe. O Chico estava chateado porque na árvore não existia tesouro. E minha mãe ria muito – a gente não entendia bem, pois afinal não encontramos nada, nem ouro e nem o fantasma – vai entender os adultos não é?

No dia seguinte contamos aos demais amigos, durante o nosso tradicional recital noturno: nos reuníamos na garagem, todas as noites, com o clubinho da amizade, para relatar os fatos do dia, recitar versos, cantar e eu mostrava minhas últimas composições. Ninguém sabia tocar gaita nem violão, então os instrumentos que ganhei de presente eram pouco utilizados.

Antes do recital Chico e eu relatamos o fato. E a decisão era unânime entre o grupo, de que o fantasma do casarão havia entrado no porão durante o momento em que espiamos pela fresta da porta. E que o correto seria invadirmos o local, com tochas de fogo e gaiolas. Deixaríamos algumas gaiolas no meio do salão, e com certeza ele ficaria preso durante a noite.  Nos próximos dias passamos o tempo procurando pedaços de taquara e construímos uma gaiola. Os meninos cuidaram da construção e as meninas de buscar material. Demoramos uns três dias – nossa como aquilo era difícil. Mas, enfim, ficou pronta. Na quarta-feira à noite não teríamos recital. Pegamos a gaiola e nos dirigimos até o casarão, onde montaríamos uma tocaia para o fantasma. Sim, o pegaríamos com certeza.

Estávamos entre oito crianças, com idade entre seis e 12 anos, todas muito valentes. O mais velho era o Chico, o construtor da gaiola e chefe da operação. Eu era idealizadora da expedição. Para se ter uma dimensão do tamanho dessa operação, era algo como que duas quadras de estrada de chão, sem luz e um prédio abandonado, tomado pelo matagal.

Quando chegamos ao portão, em torno de oito horas da noite, ouvimos um som estranho que vinha das entranhas do casarão e nossa valente ação cedeu lugar para o pânico. Sobramos apenas o Chico e eu, uma vez que as demais crianças correram. Entramos no pátio, armamos o alçapão da gaiola e deixamos perto da porta do casarão e fomos embora. Naquela noite ninguém dormiu devido à ansiedade.

Na manhã seguinte, eram pouco mais de nove horas fomos ao local, a gaiola estava vazia. Seria necessário ir novamente ao casarão durante a noite. Porém, ninguém gostou muito da ideia. Resolvemos deixar nossa aventura para outro dia. Um dia que nunca mais voltaria, uma vez que ninguém ousou trazer o assunto novamente à tona.

Durante os anos que se seguiram muitas histórias iriam ser contadas, muitas vidas iriam chegar e outras sair daquela região. A vida seguia seu curso, com ou sem fantasmas.

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