Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

EDNA LAUTERT

O Morro do Cata Latas



Conto cinco vezes premiado em concursos nacionais e um prêmio regional de literatura

Lá vai ela, cruzando a estrada. Chutando latas.
Vez por outra agaixa aquela pele visguenta e traga um pito, juntado do chão. Os dentões, pútridos, escondem um nojento sorriso, enquanto o cuspe avança pela calçada. 
-Êta! Hoje a feira não vai dar prá canha! - resmunga - bem que aquela cooperativa poderia pagar mais.
O Bento ouviu a lamúria.
-Falando sozinha de novo, Zefa?
-Vidinha à toa esta compadre. Hoje o troco não paga um trago.
-Deixa quieto, comadre. Te pago um gole.
-Humhum. E desde quando Bento paga alguma coisa?                             

Mesmo estranhando, resolveu calar e aceitar. Seguiu o infeliz até a venda da esquina. Sentou e ficou observando tudo. Estava lá o Zeca, o dono da ‘braba’.Haaarrre, que aquela era de entortar o ‘zóio’ do vivente!
-Me conta a novidade compadre.
- Que novidade mulher?
-Tu não juntou lata hoje, que eu sei.
- Precisava não. Fiz um biscate.
Zefa deu de ombros. De repente, veio-lhe um estalo:
-Tá vendendo erva de novo? - a pergunta saiu em voz alta demais.
-Zefaaaa!!!!
O grito veio lá, do outro canto do morro. Era Tonho, o ‘abecedado’ da esquina. Outro dia Zefa viu ele ‘trocando algumas’ e, decididamente, não ficou muito feliz.
-Não gostei do que ouvi por aqui - foi logo avisando.
- E o quê ouviu? - Zefa era safa. Não podia arriscar.
-Sabe a regra - disse ele, com desdém.
Ficou quieta. Sim, sabia a regra. E pensar que um dia pintaram aquilo ali como o paraíso. 
Levantou, deu alguns passos, ainda sem saber como agir ou para onde ir. 
Quem falava de erva no morro estava perdido. 
Quando resolveu correr, o estampido ecoou pelas ruas, acordando meia dúzia de boêmios que ainda dormiam, no chão.
- A lixeira chegou!!! O aviso veio de Beatriz.
Das casas, meia dúzia de olhares, curiosos, observavam a ‘lixeira’ ganhar a rua. Enquanto, na esquina, o giz assinalava o corpo de uma mulher de meia idade, que passou pela vida, sem deixar sinal algum.
- O que houve? - perguntou o policial.
Ninguém sabia. No Morro do Cata Latas ninguém sabia nada. Sempre.

(Edna Lautert – jornalista –membro da Academia Santo-angelense de Letras – atual presidente. Conto cinco vezes premiado em concursos nacionais e um prêmio regional de literatura)

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